OS GRANDES BAILES
Eu tinha na época quinze anos incompletos e já acompanhava o time do Bié, que levava na camisa a imagem de uma águia e o nome oficial de Águias Negras. Já trabalhava no Despachante Osley, na época localizado defronte a marcenaria do Ciaramello. Já conhecia também o salão social do CASM, seu interior, sua secretaria, sua sala de reuniões, seu palco, sua fachada e sua entrada central. Convivia com atletas e com dirigentes e não diria “ mesmo com pouca idade” até porque, com exceção dos diretores, éramos todos contemporâneos, alguns um pouco mais velhos, outros um pouco mais jovens.
Para comemorar o aniversário da cidade aconteceria no salão um grande baile, animado, pela, na época, famosa Orquestra Nélson de Tupã. Durante toda a semana a agitação era grande, com arrumação do salão, compra de bebidas, contratação de garçons, lavagem das toalhas e dos copos, um trabalho incansável e aparentemente interminável que mobilizava muitas pessoas, quase cem por cento ferroviárias, que após o expediente profissional dirigiam-se para o Clube, onde, espontaneamente ficavam até o anoitecer trabalhando.
Nós, garotos, colaborávamos mesmo sabendo que não poderíamos participar do evento, pela pouca idade e pela atuação dos nossos juízes de menores, um deles, justamente o chefe, Hilarino Rodrigues, que por coincidência e para nosso azar morava exatamente ao lado de salão. Outros, como João Antônio Ramos, o João da Preciosa, o José Maria Cordeiro e a Maria Arena também colaboravam no sentido de que não se permitisse o acesso de menores de idade àqueles bailes.
Num desses dias, enquanto eu ajudava na lavagem do salão, escorrendo com enormes rodos uma água de coloração preta – por mais água que fosse jogada parece que a sujeira não saia – o Otello Rocchi, italiano maravilhoso que trabalhava com a Família Ciaramello e era um entusiasta atleticano me convidou para ajudá-lo “ no sábado” durante a realização do baile, aprontando lanches, na época chamados apenas de sanduíches e antes mesmo de me refazer do susto, aceitei o convite.
Chega o sábado e passo o dia todo no salão colaborando com todos os diretores, colocando enfeites sobre as mesas, ajudando o Ildefonso com o gráfico das mesas, colocando bebidas na geladeira, organizando os talões com os ingressos, indo e voltando ao Zaparolli para checar detalhes que o Otello ia lembrando a respeito da quantidade de pães e de pernil. No final da tarde quando a Orquestra chega e começa a se instalar no palco minha ansiedade parecia aumentar e não me cansava de ficar admirando os instrumentos, os músicos, aguardando desesperadamente o momento de poder ir à minha casa e voltar.
Novamente é o Otelo que me surpreende, dizendo: “ menino, vá para casa, tome um banho, coloque uma calça preta e uma camisa branca porque o traje é social e procure estar aqui ali pelas nove horas”. Fiz o trajeto até minha casa rapidamente, tomei um banho ligeiro, coloquei a roupa do baile que minha mãe tinha lavado e passado, tomei um prato de sopa de feijão e com a benção dos meus pais regressei correndo para o salão.
Não sei o que aconteceu nesse ínterim, mas era um outro mundo que encontrei chegando ao mesmo salão de onde havia saído algumas horas antes. A iluminação parecia diferente, a frente do clube mostrava uma dignidade que nunca havia percebido, as pessoas transitando engravatadas, vestindo ternos, mulheres com vestidos longos, echarpes, carros estacionando. Na portaria os diretores que conversavam com os juízes de menores explicavam que eu trabalharia com o Otelo e conseguem a permissão.
Quando entro naquele salão onde estava todos os dias não o reconheço, apesar de ter ajudado na sua arrumação: 80 mesas de madeira cobertas com toalhas quadriculadas em azul, vermelho e branco ( as cores do clube), oitenta enfeites, toda a diretoria em traje de gale, a orquestra iniciando seus primeiros acordes, a iluminação era excessivamente branca, item que valorizava um bom baile na época, dava a sensação exata de que ser adulto era uma coisa muito boa, ao mesmo tempo que me perguntava o porque se proibia do acesso para a garotada.
O salão tinha dois bares: o da direita, no sentido de quem nele entrava, era específico para a venda d bebidas, onde trabalhavam, entre outros, o Jaburu, o Orlando Sanches, o Dito Gordo, O Sílvio, filho do João do Fio. Como tesoureiro, trabalhava o Toscano! No Bar da esquerda preparavam-se os sanduíches, uma parte dos quais era destinada a alimentação da Orquestra e foi para esse local onde eu me dirigi, onde já me aguardava o Otello, rodeado de sacos de pães, panelas com molhos e travessas com pernil, assados no forno da padaria do Zaparolli.
Quando a orquestra iniciou o Baile, o fez tocando uma música que não conhecia, mas que, depois, conhecendo-a, nunca mais esquecerei, chamada “ Beguin the Beguine”. Assim começou, e entre um sanduíche e outro, entre uma colherada de molho e outra, entre um pedaço de pernil e outro, eu ia me deixando levar pelo clima fabuloso que até então não conhecia, imaginando que o mesmo acontecia com todas as outras pessoas.
Lembro-me do José Rizzo e dona Cida, pais do Gérson, amigo da escola: aquele casal animado, dançando todos os ritmos contagiando os outros com sua felicidade não era o mesmo casal tranquilo cuja casa eu frequentava. Do mesmo modo, o Paulino Coscarelli, que ali se mostrava um exímio dançarino, não era o mesmo tintureiro que eu conhecia. E podia admirar ainda outros casais, como o Luiz Zaparolli e dona Déa e oRodnei Zago com sua esposa.
Realmente eu estava vivendo uma outra realidade, num outro mundo, onde as pessoas misturavam Fanta com gim e chamavam a bebida de Hi-Fi; outros optavam pela Coca Cola e pelo rum, bebendo Cuba Libre. Tudo em grandes quantidades! Tudo em demasia, o que, para quem, como eu, contentava-se com o guaraná, ia permitindo uma explicação: os adultos não deixavam as crianças entrarem para poderem transformar-se! Os bailes eram a grande oportunidade para esta transformação, que, por sua vez, dava a nítida impressão de que a felicidade em Mairinque, naquela época, tinha o endereço certo: o salão de bailes do CASM e foi ali, naquela noite, comemorando o aniversário da cidade, que eu descobri os mistérios da NOITE.
Pelica
artigo original escrito em outubro de 1981.
