UM CLUBE COM 50 ANOS DE IDADE

Como se faz para comemorar 50 anos da fundação de um clube de futebol? Em primeiro lugar, não dá para acender velinhas, afinal de contas o aniversariante é uma figura abstrata, mas cabe a pergunta: seria abstrata a figura deste aniversariante que agora comemora 50 anos de vida?

Como fazer para homenageá-lo? Afinal de contas, nestes anos todos centenas, talvez milhares de pessoas, ex-funcionários, ex-atletas, ex-torcedores, ex-diretores, ex-colaboradores e até mesmo ex-tudo suaram, brigaram, plantaram grama, carregaram tijolos, lavaram camisetas, limparam chuteiras, lavaram copos, varreram salão, puseram dinheiro do bolso, amaram, curtiram, sofreram, choraram e alegrarem-se para que hoje pudéssemos estar aqui!

Aqui onde? Nesta sede, cujas paredes precisavam emoldurar figuras ímpares como Zé Angelini, Chiquinho Bertolini, Andrelino Dias, Orlando Tonim, Álvaro Chagas, Alfredo Bertolini, Silvio Pedra Ramos, o sr. Manoel, pai do Gambeta e muitos outros. Nesta sede cujas paredes continuam altaneiras agora acolhendo jovens nos bailes da época. Aqui hoje, neste momento, quando não precisamos citar muitos nomes, pois cada um de nós, de vocês, sabe a importância deste Clube na vida de Mairinque.

Como começar uma homenagem ao cinquentenário de um Clube sem pretender citar muitos nomes com o perigo de cometer alguma injustiça. Simbolicamente pedimos a licença para ilustrar a importância e a vida do Clube comparando-o com aquele velho vestiário de madeira que ainda existe lá dentro do campo de futebol. Ele é o símbolo do Clube para nós porque foi, durante muitos anos, dentro dele, que se mesclaram o suor, a raça, o sangue e a vibração de todos aqueles que deram a sua participação. Com sua aparência modesta, humilde, simples, o vestiário tem atravessado os anos sem perder seu charme, seu carisma, sua importância. Esta é também a vida do Clube em todos esses anos e quem já não sentiu um dia o orgulho de usar a camiseta do CASM? E os mais velhos se lembram do respeito que nossos adversários dedicavam aos times que ainda eram formados.

Porém a dificuldade para se falar da história do Clube é muito grande devido ao fato do CASM não ser apenas futebol. Tivemos sempre grandes equipes de basquetebol e ainda recentemente o Clube participou da Divisão Especial de Basquete num campeonato estadual promovido pela Federação Paulista de Basquetebol.

Voltando a este salão quem não se lembra dos bailes que aqui eram realizados? Logo em janeiro a Diretoria conseguia vender todas as mesas já para o ano todo. Hoje o CASM possui uma grande sede social, com parque aquático, sauna e restaurante e os associados podem usufruir de um lugar agradável. Até alguns anos atrás somente era possível sentar-se numa arquibancada de concreto e encarar um sol forte ou muita chuva, torcendo pelos nossos ídolos.

A vida do Clube sempre esteve associada entre o jovem e o passado, entre o atual e o conservador. Nas disputas internas para composição das diretorias sempre se revezavam no pleito os jovens e os velhos, como se costumava dizer. Os jovens, pela própria natureza mais ousados, criavam e planejavam – com isso se criou a sede social – mas os velhos, pela própria natureza e menos afoitos pagavam a conta no ano seguinte. Nesta mescla, o clube se aperfeiçoou e cresceu!

Aqui onde estamos muita coisa mudou! A fachada do clube já não é mais aquela, assim como deixou de existir o bar dirigido por dona Maria Mercado. Internamente já não temos mais aquilo que na época os garotos apelidavam carinhosamente de poleiro, que eram duas escadas laterais que criavam um piso superior onde ficavam cadeiras e mesas, que hoje seria denominado, se ainda existisse, de mezzanino.

Do resto pouca coisa mudou! As luminárias estão voltando para o som da discoteca! Os bares que existiam aqui no fundo do salão também fazem parte do passado. Os mais velhos podem se recordar: aqui na minha direita ficava um bar onde nos grandes bailes o Otello Rocchi comandava a feitura dos sanduíches; à minha esquerda, entre outros, o Dito Gordo, Orlando Sanches, Ciaramello, Zé Pompiani, o Sílvio, o Toscano serviam as bebidas.

No campo de futebol, ao contrário, muita coisa foi alterada por uma necessidade de adaptação aos novos tempos. A arquibancada de concreto que já citamos, que ficava no lado direito do campo, no sentido de quem nele entrava, teve que ser demolida. O bar, que ficava logo ali na entrada há muito tempo teve que desaparecer para que se pudesse construir o parque aquático. Paradoxalmente o que se conservou foram as arquibancadas de madeira e o velho vestiário. Ficaram como símbolos dos 50 anos, fortes, resistentes, um tanto desajeitados, mas como sacramentos de uma história viva.

Não é fácil contar uma história do CASM! Citar nomes então é perigoso pois certamente esqueceríamos algum e todos, sem exceção, por mais humilde que tenha sido o funcionário, por mais ruim que tenha sido o atleta que disputou alguma partida pelo clube, por mais atrapalhado que tenha sido algum dirigente, todos eles foram importantes e continuam sendo para o Clube. Não podemos considerar os 50 anos como apenas uma porção de datas assinaladas num calendário. Cinquenta anos é vida! Vida de pessoas que faziam do CASM a sua família, a sua paixão, a sua própria vida.

Alguns nomes porém podemos mencionar sem o perigo de cometermos injustiças! Pedimos licença para homenagear toda pessoa que um dia participou, direta ou indiretamente da vida do CASM, na pessoa das donas Olívia Pompiani e Maria da Eva que comandavam a Torcida Feminina. Impossível deixar de citá-las e elegê-las nessa ocasião como símbolo de quem lutou, chorou e se emocionou pelo Clube numa época em que a participação da mulher na sociedade era um tabu. Esperamos que todos concordem que é impossível lembrar e recordar todos os nomes, mas de todos os ex-presidentes gostaríamos de lembrar do Orlando Tonim. Entre os atletas, há centenas de nomes, mas para não cometer injustiça, lembro-me do ex-massagista Claro Benedito de Andrade a quem todo atleta dedicava seu carinho e agora, na figura dele, Claro, pode também ser permitido mostrar o carinho a todos ex-atletas.

Quantos nomes! Quantas histórias! Quantas choradeiras! Quantas conquistas! Quantos problemas! Quantas incompreensões! Quantas barreiras surgiram para serem transpostas! Quantas pequenas dificuldades! Quantos bailes! Quantas festas! É muita história para ser contada numa noite só! Um Clube que um dia foi chamado de Operário Futebol Clube e que tinha como sua cor de camisa o verde no ano de 1938 jogou contra operários da Serra do Mar vindos até Mairinque trazidos pelo falecido Fera! Um clube que em 12.03.1940 mudou de nome para Clube Atlético Sorocabana de Mairinque e até hoje vive esperando um momento para reconstituir sua história, rearrumar seus arquivos, organizar os seus livros para que no futuro os jovens possam de orgulhar também de dizerem que PERTENÇO AO CASM!

Crônica escrita pelo Pelica e lida na cerimônia de comemoração aos 50 anos do CASM em 12 de março de 1990.